terça-feira, 12 de abril de 2011

Escritor.

Dia desses conheci um rapaz,
ele era escritor.
Era famoso, com livros lindos,
mas o rapaz, pobre rapaz,
era tão sem vida,
sem romance.
Perguntei a ele
como podia escrever livros tão belos,
e ter uma vida tão morna.
E ele me disse que todo escritor é um mentiroso
e só escreve sobre o que não sente.
Por isso toda história sua,
tinha um final feliz.

Escritor.

Disseram-me que não deveria ser assim.
Que deveria fazer algo sério,
Ou algo bom de minha vida.

Sugeriram que fizesse um bem à humanidade.
Que curasse pessoas das mais diversas moléstias
Que as salvasse do sofrimento.

Pediram-me que procurasse iluminar o caminho
De mentes assíduas pelo conhecimento
E que deveria fazer pesquisas sobre o mundo.

Disseram-me que sou deveras inteligente.
Que não deveria ter tais ambições
Que este não é o futuro que mereço.

Mas se devo curar pessoas e iluminar caminhos,
Há maneira melhor que curando corações e fazendo pessoas pensarem?
Há futuro melhor que ser um escritor?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sob a luz forte.

Estavam em um vasto salão, mesmo que não soubessem, porque tudo que viam era uma tremenda escuridão. Nada viam, mas muito ouviam e sentiam. 
Uma algazarra, era isso que se podia ouvir. Por todos os lados as pessoas - e eram muitíssimas pessoas -  gritavam: queriam saber onde estavam, quem os levou até lá, com quem estavam e coisas do género. Gritavam e gritavam.
Empurrões, era isso que se podia sentir. As pessoas empurravam umas às outras em tremendo desespero, batiam nas paredes buscando por uma saída, mas sem sucesso. Mas mantinham a esperança, se uniam e tentavam encontrar uma porta ou janela.
Com o tempo as pessoas começaram a se acalmar. Horas depois, imensas luzes se acenderam, e, num primeiro momento, todos se alegraram, mas não continuou assim por muito tempo.
A primeira coisa que repararam era uma tremenda infelicidade, assim como haviam constatado enquanto tateavam o lugar, não havia uma saída. Assim, quase toda a esperança esvaiu-se com essa constatação. Mas, como se isso não fosse o suficiente, repararam que, apesar de não haverem reconhecido pela voz, eles conheciam gente daquele lugar, repararam até que estavam unidos com seus inimigos.
Assim a luz desencadeou o caos. E, sob a luz forte, sob a tão bondosa luz da verdade, a escuridão fez falta.

Sob a luz forte.

A luz era forte. Ela quase te agredia. Você recuou e semi-cerrou os olhos quando ela te encontrou. A luz era pesada. Fora dela só existia a escuridão. Eu te pedia para se virar lentamente, observava cada canto do seu rosto.
"Agora, olhe pra mim... isso, levante a cabeça, se incline um pouco."
Os seus olhos, oh, seus negros olhos. Impossível fugir deles, olhos decididos, fortes, brilhantes. Você olha através de mim. Você me perfura. Parece estar tão longe e tão perto. Com o olhar quente, distraído mas conciso. Um olho é ligeiramente maior que o outro, a curva deles faz com que sorriam sempre. Mesmo quando chora - se é que chora. Olhos compridos, um olhar distante. Sua sobrancelha que se arquea sempre que está concentrado, acompanha o tamanho dos olhos, é quase fina, é quase cheia.
Dos seus olhos sou guiada para seu nariz, sigo a ponte e dou numa seta. A sombra me revela a delicadeza dele, é fino, é nobre. Te dá um ar mais jovem, te deixa quase arrogante. Mas ele cai bem na totalidade do seu rosto. Ele é simples, minimalista, reto. Não tem exageros e não deixa nada faltando. Dos olhos me leva à boca, uma ponte, um caminho.
Sua boca, seus lábios. Talvez sua boca seja pequena, talvez fina demais. Ela tenta se esconder, mas não consegue fugir com esse rubro, esse vermelho que a cobre, que tenta brilhar. Seus lábios sim, tem o tamanho ideal, tem carne, tem vida, tem desejo. Eles fazem uma curva leve para cima, como se você quisesse sorrir mas se segurasse. Pode sorrir.
"Adoro sua boca."
Você sorriu, claro. Depois se escondeu, mas sorriu. Seus lábios se separaram e mostraram um sorriso perfeito, brilhante, reto, feliz. Sua boca curvou-se, desdobrou-se num sorriso inocente. Seus olhos seguiram as sobrancelhas que se arquearam, quase fechados, com as marcas na pele de todos seus risos e sorrisos.
Sua pele, branca, pálida, alva. Podia-se dizer que toda a vida fora sugada de você. É tão branco, é tão cera. Sua pele é macia, mas você deixa uma barba por fazer, p'ra não parecer tão assim, tão delicado. Essa barba, com ar de desleixado. Cerrada, cobrindo seu pescoço, seu queixo. Sua pele, tão clara. Com três pintas embaixo do seu olho direito. As três marias, como eu dizia. Te dão uma nova graça, uma marca autêntica.
Você está impaciente e mordisca o seu lábio com os dentes. Joga seu cabelo p'ro lado, inquieto. Sua franja se desarruma, quase fica em cima do olho. Seus cabelos escuros quase somem nessa escuridão, posso ver sua franja que cobre metade da sua testa e os cabelos que cobrem sua orelha, nada mais. Seu cabelo, sempre comportado, achocolatado, que você teima em arrumar e desarrumar. Corrigindo o lado da franja, com medo do vento.
*click*
"Ficou linda"
Você me pede p'ra ver a foto, mas antes disso eu paro e a observo. Capturei cada detalhe seus sob a luz forte. Seus olhos de jaboticaba. Seu nariz grego. Sua boca de cerejeira. Sua barba imatura. Suas pintas. Suas marcas. Seu cabelo. Tudo condensado n'um belo diamante. Não deixei escapar nada, além de quem você realmente é.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ordinária.

Seu olhar sempre foi tão diferente,
seu sorriso sempre contente.
Suas brincadeiras inocentes,
me fazendo seguir em frente.
O tempo passava,
mas você não mudava.
Dia após dia,
repleta de alegria.

Às outras você nunca foi igual,
nunca quis ser alguém normal.
O tempo passava,
você não mudava.
Por dentro, continuava criança,
aproveitando sua infância.

Eu sorria,
contagiado por sua alegria.

Você era tão singular,
me fazia te amar.

E o tempo passou,
"todo mundo muda", você me disse.
Meu poema perdeu a rima,
pois você se tornou somente mais uma.
Como elas,
ordinária.

Ordinária.

Por um segundo, achei que eras diferente.
Achei eras única, tremendo desvario.
Não me fizeste contente
Não com este seu jeito tão ordinário.

Pensei que nascêramos um para o outro.
Nossos gostos eram tão iguais
Mas outra vez estava louco.
Eu que tenho a psique feminina, teus gosto eram normais

És uma qualquer, eis tudo.
Lá fora existem outras milhões que eu poderia amar.
Tenho pela frente minha vida e o mundo.
Só não me lembro de uma coisa: de quem eu estava a falar?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

All-stares.

Calçados. Calçados por todos os lados. Eis o que se podia ver. Sandálias, tênis, sapatos, pantufas, e outros muitos. Era uma reunião de calçados ou algo parecido.
E nesse mundo dos calçados, havia calçados de todos os tipos, Oxfords cheios de classe, confortáveis sandálias, pantufas que aqueciam a todos, e All-Stares.
Sim, All-Stares, e de todos os tipos. Com canos longos e curtos, com ou sem cadarços, de todas as cores que você pode imaginar. De todos os tamanhos e condizentes com todos estilos. Cada All-Star com sua singularidade, todos diferentes, alguns mais tradicionais, outros, uma completa vanguarda.
Todos eles eram diferentes, uns não gostavam de outros, mas isso é normal, com tanta diversidade como a que existe entre os All-Stares. Mas, apesar das diferenças, todos queriam apenas uma coisa: um par para que fossem completos.