terça-feira, 19 de abril de 2011

Rebanho.

Havia uma mulher na TV.
Uma mulher que cantava e dançava.
Todos paravam para a ver.
E cantavam e dançavam.

Tudo o que fazia,
todo mundo repetia.
Tornou-se febre, sensação.
Quase religião.

E seus seguidores cresciam.
A amavam cegamente.

Mas um rapaz achava isso estranho.
"como não veem que são apenas um rebanho?"

Ele mudaria o mundo,
mostraria a todos o que acontecia.

De início, desconfiavam.
Chamavam-no de louco.
Mas pouco a pouco,
um a um, acreditaram.

Iniciou-se a revolução.
Um rapaz, guiando a nação.

Ele era aclamado,
e ergueu seu punho como se ergue um cajado.

Todos o seguiam, um conjunto de animais.
Para se tornarem individualmente,
iguais.

Rebanho.

Há esse rebanho.
E, antes de tudo, que fique avisado que ninguém os guarda.
Alguns dos cordeiros até crêem
Que alguém olha por eles,
Mas não há ninguém que deles cuide.

Na verdade há apenas um fazendeiro
Que manda nos pastores
Que, controlados pelo fazendeiro, controlam o rebanho.
Mas esse fazendeiro pouco se importa com os cordeiros
Apenas se preocupa quando não produzem o suficiente.

Os carneiros não sabem que são controlados.
Vão de lá pra cá e de cá pra lá
Sem sequer questionar nada.

Alguns até percebem essa manipulação
E tentam fazer algo.
Mas logo depois são repreendidos,
Chamados de ovelhas negras - ou vermelhas, em alguns casos.

Eles pensam que são felizes
Pois o fazendeiro as faz acreditar nisso.
Apesar de toda desgraça
E da alienação ovina,
Há esse rebanho.

domingo, 17 de abril de 2011

O livro.

Minha querida, estou a escrever um livro. A história é simples: um rapaz conhece uma linda garota, eu me apaixono por ti, ela o ama de volta, ama pouco, é verdade, mas ama. Realmente lindo, mas por fim, num final infeliz para ele, você vai embora. Incrivelmente triste, não é?
Ah, decerto que dará um bom livro. Ninguém poderá negar que há-de ser um best-seller, aliás, acredito que foi Henry Miller quem disse que a melhor maneira de se esquecer uma mulher é transformando-a em literatura, e, por deus, como isso está a funcionar. A cada dia misturo-me mais com meu protagonista, - o qual, curiosamente, lembra-me bastante de mim mesmo - e a cada dia apaixono-me mais pela garota por quem ele é apaixonado - a qual, devido a outra ironia do destino, parece-se contigo.
Assim, continuo a escrever sobre esta trágica história de amor onde um lindo amor vivido por um jovem ingénuo e uma jovem idealista morre por culpa dos medos e inseguranças desse rapaz. É uma história simples, não tem muitas coisas que nunca foram vistas na literatura, mas é algo palpável, algo que dois jovens comuns, como nós, por exemplo, poderiam viver.
Assim, continuo a viver, escrevendo e lendo constantemente. Mas não importa quantos romances eu leia ou escreva, para mim nós sempre seremos o melhor livro já escrito.

O livro.

Era um livro comum, mas era o primeiro livro que lera. O primeiro que conseguira ler sozinho. Lembra-se de sair correndo para dizer à sua mãe que leu o livro todo. Ela o parabenizou, ele sorriu. Mal podia dormir, sua mãe disse que estava crescendo, ele não entendia muito bem o que leu, mas entendia que leu, e bastava. Abraçado ao livro, sorrindo, dormiu.
Sonhou um sonho. Era o herói do livro, o príncipe da estória. Socorria a mocinha, vencia o vilão, e ficavam todos os bons felizes.
Acordou, já estava mais velho e ficou surpreso ao ter sonhado com o livro de sua infância. Desde que lera pela primeira vez nunca mais o tocou, e resolveu lê-lo novamente. Ao ler, viu como a estória era infantil e simples, mas a mensagem e o signifcado do livro para ele bastaram, era seu livro predileto, afinal. Sempre carregava consigo, embora nunca mostrasse a ninguém, pelo fato do livro ser de criança.
Era uma garota comum, mas a primeira garota que gostara. A primeira que se apaixonara. Lembra-se de sair correndo para alcançá-la e dizer tudo o que sentia. Ela o beijou, ele sorriu. Mal podia dormir, ele estava crescendo, não entendia muito bem o que sentia, mas estava com ela, e bastava. Lembrou de tudo, do livro, da garota, e sorrindo dormiu.
Sonhou um sonho. Era o herói do livro, o príncipe da estória. Socorria a mocinha, e a mocinha era a garota. Ficavam todos felizes.
Acordou e percebeu que a estória tornou-se história, a história dos dois. Queria escrever um livro. Mas não era capaz, só conseguiu ler a estória do príncipe, que salvava a mocinha e vencia o vilão. Para sua garota, para seus filhos, para todos, sempre contava sua estória e sua história. A do livro. A do coração.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Escritor.

Dia desses conheci um rapaz,
ele era escritor.
Era famoso, com livros lindos,
mas o rapaz, pobre rapaz,
era tão sem vida,
sem romance.
Perguntei a ele
como podia escrever livros tão belos,
e ter uma vida tão morna.
E ele me disse que todo escritor é um mentiroso
e só escreve sobre o que não sente.
Por isso toda história sua,
tinha um final feliz.

Escritor.

Disseram-me que não deveria ser assim.
Que deveria fazer algo sério,
Ou algo bom de minha vida.

Sugeriram que fizesse um bem à humanidade.
Que curasse pessoas das mais diversas moléstias
Que as salvasse do sofrimento.

Pediram-me que procurasse iluminar o caminho
De mentes assíduas pelo conhecimento
E que deveria fazer pesquisas sobre o mundo.

Disseram-me que sou deveras inteligente.
Que não deveria ter tais ambições
Que este não é o futuro que mereço.

Mas se devo curar pessoas e iluminar caminhos,
Há maneira melhor que curando corações e fazendo pessoas pensarem?
Há futuro melhor que ser um escritor?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sob a luz forte.

Estavam em um vasto salão, mesmo que não soubessem, porque tudo que viam era uma tremenda escuridão. Nada viam, mas muito ouviam e sentiam. 
Uma algazarra, era isso que se podia ouvir. Por todos os lados as pessoas - e eram muitíssimas pessoas -  gritavam: queriam saber onde estavam, quem os levou até lá, com quem estavam e coisas do género. Gritavam e gritavam.
Empurrões, era isso que se podia sentir. As pessoas empurravam umas às outras em tremendo desespero, batiam nas paredes buscando por uma saída, mas sem sucesso. Mas mantinham a esperança, se uniam e tentavam encontrar uma porta ou janela.
Com o tempo as pessoas começaram a se acalmar. Horas depois, imensas luzes se acenderam, e, num primeiro momento, todos se alegraram, mas não continuou assim por muito tempo.
A primeira coisa que repararam era uma tremenda infelicidade, assim como haviam constatado enquanto tateavam o lugar, não havia uma saída. Assim, quase toda a esperança esvaiu-se com essa constatação. Mas, como se isso não fosse o suficiente, repararam que, apesar de não haverem reconhecido pela voz, eles conheciam gente daquele lugar, repararam até que estavam unidos com seus inimigos.
Assim a luz desencadeou o caos. E, sob a luz forte, sob a tão bondosa luz da verdade, a escuridão fez falta.