terça-feira, 5 de abril de 2011

Ordinária.

Seu olhar sempre foi tão diferente,
seu sorriso sempre contente.
Suas brincadeiras inocentes,
me fazendo seguir em frente.
O tempo passava,
mas você não mudava.
Dia após dia,
repleta de alegria.

Às outras você nunca foi igual,
nunca quis ser alguém normal.
O tempo passava,
você não mudava.
Por dentro, continuava criança,
aproveitando sua infância.

Eu sorria,
contagiado por sua alegria.

Você era tão singular,
me fazia te amar.

E o tempo passou,
"todo mundo muda", você me disse.
Meu poema perdeu a rima,
pois você se tornou somente mais uma.
Como elas,
ordinária.

Ordinária.

Por um segundo, achei que eras diferente.
Achei eras única, tremendo desvario.
Não me fizeste contente
Não com este seu jeito tão ordinário.

Pensei que nascêramos um para o outro.
Nossos gostos eram tão iguais
Mas outra vez estava louco.
Eu que tenho a psique feminina, teus gosto eram normais

És uma qualquer, eis tudo.
Lá fora existem outras milhões que eu poderia amar.
Tenho pela frente minha vida e o mundo.
Só não me lembro de uma coisa: de quem eu estava a falar?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

All-stares.

Calçados. Calçados por todos os lados. Eis o que se podia ver. Sandálias, tênis, sapatos, pantufas, e outros muitos. Era uma reunião de calçados ou algo parecido.
E nesse mundo dos calçados, havia calçados de todos os tipos, Oxfords cheios de classe, confortáveis sandálias, pantufas que aqueciam a todos, e All-Stares.
Sim, All-Stares, e de todos os tipos. Com canos longos e curtos, com ou sem cadarços, de todas as cores que você pode imaginar. De todos os tamanhos e condizentes com todos estilos. Cada All-Star com sua singularidade, todos diferentes, alguns mais tradicionais, outros, uma completa vanguarda.
Todos eles eram diferentes, uns não gostavam de outros, mas isso é normal, com tanta diversidade como a que existe entre os All-Stares. Mas, apesar das diferenças, todos queriam apenas uma coisa: um par para que fossem completos.

All-stares.

Eu caminhava de cabeça baixa, como sempre. Era guiado pelos meus all-stares que me levavam para todos os lugares. Um, depois o outro, um, depois o outro. Seguindo pelo corredor, via outros tênises, sapatos e calçados em geral. Um par de sapatos apressados aqui. Um casal de quatro tênises da nike acolá. Alguns crocs por aí - é. Eu era ultrapassado e ultrapassava, de acordo com a vontade dos meus all-stares negros. Geralmente eles eram muitos quietos e não gostavam muito daquelas sandálias, rasteirinhas, salto-altos ou tênises da moda. Eles, na realidade, eram bem conservadores, um pouco racistas, admito, e só davam bola para outros all-stares. Um pouco mais à frente, paramos numa escada rolante. Os meus all-stares não são apressados e evitam esforço, não são daqueles que andam na escada-rolante, pois sabem que todos chegarão ao outro lado. Estamos na escada e podemos ter uma vsão mais privilegiada dos calçados alheios. Mais alguns sapatos sociais. Um par de sapatos sociais de frente com um par de saltos finos. Dois pequenos e pulantes chinelos do ben 10 que acompanhavam um par de havaianas brancas e cansadas. Uma turma de tênises da nike, adidas e reebok, grandes e chamativos e com molas até o cadarço. Mas entre toda essa sapataria, meus all-stares avistaram uma pretendente. Eram dois belos all-stares vermelhos, eram pequenos e deicados, escarlates e tranquilos. Cada um estava num degrau da escada, e o de cima subia e descia como se dançasse. Ao chegar ao topo da escada, os all-stares vermelhos calmamente caminharam pela passarela que dá até a plataforma do trem. E, chegando ao topo da escada-rolante, meus all-stares pretos seguiram aquele atraente par. Andando com certa pressa, notei que seguiam aquele outro par de all-stares. Naturalmente, por pura curiosidade, levantei-me para ver quem seria a dona dos calçados. Só pude vê-la de costas, porém parecia graciosa: era baixa, seu cabelo era curto e louro, tinha um corpo delicado que combinava com o tamanho dos all-stares. Andava com um ar de despreocupação e no ritmo da música que ouvia em seu headphone azul. Encontramos outra escada rolante. Descendo a escada, meus all-stares não podiam ver o atraente par que seguiam e, por isso, ficaram inquietos no degrau que rolava. Finalmente na plataforma, meus all-stares queriam encontrar o outro par. Para lá, sapatos; saltos; sandálias; tênises com molas; tênises com três listras; chinelos; sapatos correndo; saltos fofocando; sandálias sentadas. Para cá, sapatos; tênises; saltos; pequenos tênises rosas perseguindo pequenos tênises azuis; all-stares; saltos; all-stares! Mas... não... all-stares brancos, daqueles sem gosto ou personalidade, não eram os que procuravam. Continuaram a procurar e, quase no fim da plataforma, encontraram seus all-stares vermelhos. Eles estavam lá, o da direita um pouco levantado, quase flutuando de alegria. De frente para eles, um par de all-stares azuis. E olhando para cima, vi a menina entrelaçando seus braços num rapaz que eu não observei muito para descrever, só sei que usava all-stares azuis. Então fui esperar pelo trem. Pois bem, não me importei para o fim da caçada, mas os meus all-stares ficaram um pouco chateados, o mais triste que um calçado poderia ficar. Com os cadarços frouxos e a língua de fora.

terça-feira, 29 de março de 2011

No restaurante.

No restaurante,
tentando te impressionar a cada instante.

Pedindo tudo que há de caro:
comida chique e um vinho raro.

No restaurante,
agindo como um infante

Fingindo que minha vida é sempre assim,
que eu também não achei o escargô ruim.

No restaurante,
com uma pose galante.

Dando a entender que és uma qualquer,
e que eu não sempre te quis como minha mulher.

No restaurante,
tudo volta a como era antes.

O vinho cai.
De minha atitude reclama,
diz que já não me ama.
Você se vai.

No restaurante,
desperdiço minha última chance
de ser teu amante.

No restaurante.

Pedi uma bebida qualquer.
O garçom perguntou-me
Se queria com ou sem gelo.
Parei e pensei comigo mesmo
Que pouco importava.
Pois cá dentro tudo congelou.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Figurantes.

-Ah, sinto-me tão só. Preciso de alguém, verdadeiramente. Ok, tenho amigos, um bocado até. Tenho minha família, é bem verdade. Minha mãe me ama e coisa e tal, mas, por Deus, não é esse tipo de amor que preciso. 
Pensou o rapaz enquanto passava directo por uma garota que também estava pensativa.
-Poxa, todas essas pessoas amontoadas aqui nessa cidade e eu não encontro nenhuma que me faça feliz? De facto, não tenho par mesmo, ninguém nunca irá querer-me.
E prosseguiram sem saber que tinham tudo em comum, que poderiam protagonizar um amor inesquecível. Seguiram sendo apenas figurantes da vida um do outro.